O Leitor - Não se pode negar, o filme é mais que um romance
Falar do Holocausto tornou-se um tema clichê. No mercado já há uma gama de filmes e livros sobre o tema, pois comover através do drama de um sobrevivente a um dos maiores genocídios da humanidade é prático e fácil de vender. Felizmente, O Leitor (The Reader, EUA/Alemanha, 2008), inspirado em livro homônimo, ultrapassa esta barreira, apesar de ressuscitar através da usual atmosfera do amor.
Não se pode negar que o filme é um romance, mas não apenas isso. O longa faz a retrospectiva da adolescência de Michael Berg (David Kross, na versão mais jovem e Ralph Fiennes quando adulto) em seus 15 anos, quando conhece e apaixona-se por Hanna Schmitz (Kate Winslet). Fiscal de bilhetagem de um trem, Hanna conhece Michael por acaso, no saguão do seu prédio enquanto o menino se recuperava de um mal estar, na Alemanha de 1958. Apesar da diferença de idade e maturidade, ela tem quase 40 e ele inexperiente sexualmente, apaixonam-se e vivem um romance tórrido de alguns meses, com direito a viagem romântica de bicicleta pelo país.
Hanna é um ex-soldado da SS (facção no movimento nazista considerada uma das mais violentas) refugiando-se em um mundo próprio. Mora em quarto simples e suas roupas condizem com seu estado de espírito: escuras e sérias. Sente-se em suas ações um carinho especial pelo garoto, mas sua natureza fria (comum nos remanescentes do Holocausto) entram em contradição com a avalanche de sentimentos de Michael. Sem puder suportar um amor tão puro e sincero, muda-se sem deixar aviso ou perceber a marca deixada na vida do menino.
A grande contradição e reflexão para Michael e o público chega alguns anos depois, com cursando direito. Como aluno, deve assistir ao julgamento de seis ex-guardas nazistas, entre eles Hanna. Em um insight, entende muito dos traços da mulher na época do relacionamento, mas aparentemente não consegue associar a doce amante com a assassina narrada pelos lábios do juiz e testemunhas.
O grande feito do roteiro, com indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado a David Hare, é suscitar o debate de um julgamento pós-genocídio dos próprios alemães aos guardas. Talvez uma necessidade social de culpar alguém por atitudes de conhecimento geral e os principais líderes sociais ignoradas por anos. Após longas perguntas duras em juízo, Hanna se auto-incrimina culpada por ter escrito um relatório contando os fatos acontecidos durante um incêndio em uma capela, no qual diversas mulheres morreram porque as portas estavam trancadas. Apenas uma sobreviveu, e esta estava testemunhando para incriminar as rés.
O filme recebeu indicação de cinco Oscar em 2009, incluindo o diretor e idealizador do projeto Stephen Daldry. Com boas escolhas indo do elenco a fotografia, passando por excelente roteiro reflexivo, câmeras, direção e arte e elenco de apoio, Stephen está de parabéns. A direção de arte cuidou com carinho de Hanna, evoluindo seu figurino sério e sem personalidade de acordo com o desenrolar da história. O ambiente hostil com belas cenas de jogo de sombra merecem uma verificada atenta, com foco ao fundo e os personagens em silhueta, deixando a atmosfera realista ao ambiente hostil presente na Alemanha na década de 50.
Kate Winslet mostra o porquê é equiparada a Meryl Streep (a grande colecionadora de estatuetas contabilizando cinco este anos) em excelente atuação. Mostra uma habilidade de atuar em drama incomparável em jovens talentos atuais, com força expressiva facial e embarque na vida do personagem riquíssima.
Ralph Fiennes não deixa a desejar interpretando a versão mais velha de Michael. Verdade que as cenas atuais não tem tanta força quanto as antigas, mas valem ele não desanima e lança seu talento de atuação dramática. Seu perfil sério cai muito bem em papéis de drama introspectivos como esse. Os olhos do ator refletem muito do seu amadurecimento após os anos de tortura interna por esconder um amor e se sentir culpado pela incriminação de Hanna. No tribunal, apenas ele sabia de seu anafalbetismo, conhecimento relembrado em flash back clichê de sua convivência com a amante.
Entre elenco paralelo, vale destacar as falas da sobrevivente, em sua reflexão sobre seu passado. É constante com os sobreviventes do Holocausto uma questão sobre o aprendizado nos campos de concentração. As falas da personagem são bem claras. “Não há nada lá. Os campos não foram terapia e não fomos lá para aprender”, responde firme e convicta. “Refugie-se na literatura, na arte, mas não volte aos campos”, complementa. Uma mensagem para os que ainda querem se prender em relatar um horror marcante em tantas vidas e que pessoas lutam para esquecer até hoje.
Ficha Técnica
Título Original: The Reader
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 124 minutos
Ano de Lançamento (EUA / Alemanha): 2008
Site Oficial: www.thereader-movie.com
Estúdio: The Weinstein Company / Neunte Babelsberg Film / Mirage Enterprises
Distribuição: The Weinstein Company / Imagem Filmes
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: David Hare, baseado em livro de Bernhard Schlink
Produção: Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Redmond Morris e Sydney Pollack
Música: Nico Muhly
Fotografia: Roger Deakins e Chris Menges
Desenho de Produção: Brigitte Broch
Direção de Arte: Christian M. Goldbeck e Erwin Prib
Figurino: Donna Maloney e Ann Roth
Edição: Claire Simpson
Efeitos Especiais: RhinoFX / Custom Film Effects
Elenco
Ralph Fiennes (Michael Berg)
David Kross (Michael Berg - jovem)
Jeanette Hain (Brigitte)
Kate Winslet (Hanna Schmitz)
Susanne Lothar (Carla Berg)
Alissa Wilms (Emily Berg)
Florian Bartholomäi (Thomas Berg)
Friederike Becht (Angela Berg)
Matthias Habich (Peter Berg)
Bruno Ganz (Prof. Rohl)
Max Mauff (Rudolf)
Karoline Herfurth (Marthe)
Lena Olin (Rose Mather / Ilana Mather)
Alexandra Maria Lara (Ilana Mather - jovem)
Frieder Venus (Médico)
Categoria: Cine Mulher







